Rock Progressivo, Literatura e Cinema. Estamos ampliando o espectro de atuação do nosso blog, antes restrito apenas aos temas musicais.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
domingo, 31 de julho de 2016
Crônica 4:
Geladeira:
Nos idos dos anos 70, olhava para o mar através da
varanda, gostava de ver sua linha divisória com o céu. Estava distante, ainda
sem se apoderar do continente. Ia à praia, mergulhava, pegava carona nas ondas,
dominava sua fúria.
Chegava em casa e tomava banho de água de poço bombeada por uma engenhoca elétrica apelidada de maxambomba. Almoçava numa grande copa, com todos presentes.
Dava uma fugida para comprar picolés na esquina. E para observar a nossa vivenda de longe, que me chamava de volta.
Feliz da vida, corria pelo quintal atrás de pipas e chutando bolas, muitas vezes improvisadas, nas paredes e contra o portão da entrada de carros. Invariavelmente, caia no vizinho e tinha que pular o muro às escondidas, pois preferia não incomodar toda vez que ultrapassava as fronteiras entre as casas.
Andava em cima de muros, literalmente. Fazia farofa de formigas tanajuras para degustar. Tomei conhecimento que as árvores eram lindas, donas de flores e galhos que se renovavam em ciclos definidos. Flamboyants de flores vermelhas se destacavam no vizinho.
Deitava na rede no fim do dia, ao escurecer, a observar o horizonte norte e noroeste repleto de nuvens de tempestades. Passava a contar os sucessivos relâmpagos distantes. Um rádio de pilha pequeno fazia a festa, tocando a Mundial 860 AM do Rio de Janeiro. Não gostava de televisão, cheia de chiados. Nem se fosse perfeita. Não tinha paciência para carteados ou outros jogos.
Esperava a lua nascer no mar e conversava com ela. As noites estreladas chamavam minha atenção. Quanta luz movida à energia nuclear que pulsava no Universo. Vencendo o vento nordeste, frio neste horário, também procurava discos voadores. Nunca avistava. No máximo, efêmeros meteoros. Nada de civilizações extraterrestres avançadas.
Cada canto da vivenda era um pequeno nicho diferente de outro. Cada quarto, cada pedacinho do quintal tinha vida própria. E foi lá, nos verões dos meus 11, 12 e 13 anos que comecei a perceber que fora sempre um pouco distante e em contato com os elementos não humanos, olhando para fora, na direção dos horizontes e do céu, gigantescos.
E a geladeira dos anos 50, importada? Continua lá na vivenda que, assim como ela, resiste ao tempo, carregada da história de minha família.
Minha Atafona querida, quanta saudade!
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Crônica 3:
Dobras:
Dobras:
A arte de dobrar, virar uma esquina, retorcer ferros e chapas, dobrar a mente, mudar de direção para dar novo sentido à vida, ações que estamos sempre fazendo ou na expectativa de realizar. Mas há quem se dobra diante do peso da vida, pelos ritmos impostos a cada um de nós.
Numa rua movimentada, gélida ou escaldante, trilha ela, costas encurvadas pelos fardos da vida, vivida sabe-se lá como. Carregando pacote de papel e papelão retirados das entranhas da cidade, sabe se portar com elegância. Delicadamente dribla carros, bicicletas e pessoas que nao a enxerga. Por isso , se esforça a desviar para nao ter seu caminho atrapalhado. Na sua labuta diária, a senhorinha se arrasta, mostrando para mim que o sofrimento é relativo, que podemos ser satisfeitos com o que possuímos.
E ela ? A máquina da injustiça move seus pés, no desamparo, açoitada pelas adversidades. Sem expectativa de estar entre os convidados à Ceia, cumpre sua implacável missão aos olhos de uma sociedade, esta sim miserável, calcada na busca de riquezas sem luar.
Crônica 2:
A Rua:
A Rua:
Pela rua fria, de cabeça baixa, em silêncio, no meio de anônimos e conhecidos, caminho cruzando calçadas, pedras, buracos. Mas algo me faz parar. No canto do muro, lá está ela ! Solta ao vento mas encostada como quem procurou um refúgio. Ficará ali até um instante, quando será levada para além pelas forças do mundo.
Uma folha me deteve e me deu um pouco de vida, esperança de continuar. Ela foi minha por um momento mas que vá ao sabor de sua liberdade.
Crônica 1:
Minas Gerais:
Minha Minas Gerais querida, onde aprendi a ser delicado e ponderado, a ser anônimo e silencioso, onde vi e vivi o mundo dos sábios entre calangos, tucanos, buritis e sucupiras. Onde aprendi a trabalhar e a colocar em casa a comida para minha família. Aprendi a dizer não falando sim, a ouvir mais do que falar, a esperar, andar devagar do que se apressar. Nas terras mineiras, altas e luminosas, ensolaradas e chuvosas, corri para o campo, morei pouco em cidades. Me aproximei do céu, vi e aprendi as constelações , domestiquei e criei abelhas que produziram mel. Andei em balsas nos rios e em carros por estradas esquecidas onde tinha como companhia eu próprio e a natureza esplêndida.
Fiz amigos, amigas , gente simples e também com dinheiro que, como é tradição do povo mineiro, nao demonstram seus dotes, livres da arrogância. Bebi sua água, tomei suas bebidas, comi seus alimentos e pratos típicos. Puxei gente que se desesperou para voltar para a vida e fui amparado também. Sinto saudados dos grandes amigos e amigas como Vicente Perez, Marciano, Melquíades, João Honório, Lurdinha, Geralda e muitos que não me lembro mais do nome.
Nos sertões mineiros, repleto de veredas em meio ao cerrado, com suas cachoeiras sem fim, junto do seu povo, eu aprendi que viver é mais fácil do que se pensa.
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