segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crônica 3:

Dobras:

A arte de dobrar, virar uma esquina, retorcer ferros e chapas, dobrar a mente, mudar de direção para dar novo sentido à vida, ações que estamos sempre fazendo ou na expectativa de realizar. Mas há quem se dobra diante do peso da vida, pelos ritmos impostos a cada um de nós.
 
Numa rua movimentada, gélida ou escaldante, trilha ela, costas encurvadas pelos fardos da vida, vivida sabe-se lá como. Carregando pacote de papel e papelão retirados das entranhas da cidade, sabe se portar com elegância. Delicadamente dribla carros, bicicletas e pessoas que nao a enxerga. Por isso , se esforça a desviar para nao ter seu caminho atrapalhado. Na sua labuta diária, a senhorinha se arrasta, mostrando para mim que o sofrimento é relativo, que podemos ser satisfeitos com o que possuímos.
 
E ela ? A máquina da injustiça move seus pés, no desamparo, açoitada pelas adversidades. Sem expectativa de estar entre os convidados à Ceia, cumpre sua implacável missão aos olhos de uma sociedade, esta sim miserável, calcada na busca de riquezas sem luar.

Nenhum comentário: