Crônica 4:
Geladeira:
Nos idos dos anos 70, olhava para o mar através da
varanda, gostava de ver sua linha divisória com o céu. Estava distante, ainda
sem se apoderar do continente. Ia à praia, mergulhava, pegava carona nas ondas,
dominava sua fúria.
Chegava em casa e tomava banho de água de poço bombeada por uma engenhoca elétrica apelidada de maxambomba. Almoçava numa grande copa, com todos presentes.
Dava uma fugida para comprar picolés na esquina. E para observar a nossa vivenda de longe, que me chamava de volta.
Feliz da vida, corria pelo quintal atrás de pipas e chutando bolas, muitas vezes improvisadas, nas paredes e contra o portão da entrada de carros. Invariavelmente, caia no vizinho e tinha que pular o muro às escondidas, pois preferia não incomodar toda vez que ultrapassava as fronteiras entre as casas.
Andava em cima de muros, literalmente. Fazia farofa de formigas tanajuras para degustar. Tomei conhecimento que as árvores eram lindas, donas de flores e galhos que se renovavam em ciclos definidos. Flamboyants de flores vermelhas se destacavam no vizinho.
Deitava na rede no fim do dia, ao escurecer, a observar o horizonte norte e noroeste repleto de nuvens de tempestades. Passava a contar os sucessivos relâmpagos distantes. Um rádio de pilha pequeno fazia a festa, tocando a Mundial 860 AM do Rio de Janeiro. Não gostava de televisão, cheia de chiados. Nem se fosse perfeita. Não tinha paciência para carteados ou outros jogos.
Esperava a lua nascer no mar e conversava com ela. As noites estreladas chamavam minha atenção. Quanta luz movida à energia nuclear que pulsava no Universo. Vencendo o vento nordeste, frio neste horário, também procurava discos voadores. Nunca avistava. No máximo, efêmeros meteoros. Nada de civilizações extraterrestres avançadas.
Cada canto da vivenda era um pequeno nicho diferente de outro. Cada quarto, cada pedacinho do quintal tinha vida própria. E foi lá, nos verões dos meus 11, 12 e 13 anos que comecei a perceber que fora sempre um pouco distante e em contato com os elementos não humanos, olhando para fora, na direção dos horizontes e do céu, gigantescos.
E a geladeira dos anos 50, importada? Continua lá na vivenda que, assim como ela, resiste ao tempo, carregada da história de minha família.
Minha Atafona querida, quanta saudade!